Universidade+Alta+Sofia=*Coimbra

No sábado, 22 de Junho de 2013, A Universidade de Coimbra, assim como a Alta da cidade e a R. da Sofia foram classificadas como património mundial, pela UNESCO. Concordo em género, número e grau com esta classificação. Mas entender o porque, é essencial…

Para tal, tiveram que cumprir alguns critérios:

I. Testemunhar uma troca de influências consideráveis durante um dado período ou numa área cultural determinada, sobre o desenvolvimento da arquitetura, ou da tecnologia das artes monumentais, da planificação das cidades ou da criação de paisagens.

II. Constituir um testemunho único ou pelo menos excecional de uma tradição cultural ou de uma civilização viva ou desaparecida.

III. Oferecer um exemplo excecional de um tipo de construção ou de conjunto arquitetónico ou tecnológico ou de paisagem ilustrando um ou vários períodos significativos da história humana.

IV. Estar direta ou materialmente associado a acontecimentos ou a tradições vivas, a ideias, a crenças, ou a obras artísticas e literárias com um significado universal excecional.

Valores históricos e culturais dos respetivos locais:

A Universidade de Coimbra:
É uma das Universidades mais antigas do mundo. Fundada em 1290, em Lisboa, por iniciativa do rei D. Dinis (foto 01), o qual criou a própria universidade e pediu ao Papa a confirmação. Assim ficou a fazer parte do escasso lote de quinze universidades ativas na Europa, no final do século XIII. Após um período de alternância entre as cidades de Lisboa e Coimbra, a transferência definitiva ocorre em 1537, pela mão de D. João III (foto 02), contando com a forte influência do Mosteiro de Santa Cruz.

A reforma universitária de D. João III, levou ao desenvolvimento de um pólo escolar de modo a comportar o grande afluxo estudantil e a promover uma contínua concessão de graus académicos.

O núcleo mais antigo da Universidade de Coimbra está localizado no conjunto do Paço das Escolas e corresponde essencialmente à mais antiga morada régia do país, o antigo Paço Real de Coimbra. A sua ininterrupta utilização, anterior em 5 séculos à instalação da Universidade, com uma contínua consolidação e evolução construtiva, convertem-no num edifício ímpar e absolutamente original no contexto da arquitectura universitária europeia. Junto a esse núcleo antigo, está situada a Biblioteca Joanina (foto 03), fundada como livraria de estudo, reservada ao serviço da comunidade universitária, assume-se como uma das mais deslumbrantes bibliotecas do mundo, devido a sua forma e riqueza decorativa, quer o seu valioso fundo bibliográfico composto por cerca de duzentos mil volumes, datados entre os séculos XVI a XVIII, e que ainda hoje podem ser consultados.

Durante a sua história de mais de setecentos anos, a Universidade de Coimbra (foto 04) sofreu várias reformas com correspondências em vários domínios do conhecimento e do ensino, materialmente registadas através do seu património construído: da reforma joanina à reforma pombalina, da acção promovida pelo Estado Novo à democratização do ensino e consequente expansão das instalações.

Enquanto sede da única universidade portuguesa, Coimbra tornou- se, ao longo dos séculos, um importante pólo cultural, tendo a norma culta desta cidade exercido grande influência no saber linguístico dos estudantes, os quais acabariam por influenciar os povos de outros espaços geográficos. Importante ainda a passagem pela instituição de muitos importantes nomes da literatura nacional.

A Alta de Coimbra

A cidade que é hoje Coimbra teve o seu primitivo núcleo de povoamento no cimo da colina da Alta. Este cabeço, com cerca de 160 metros de altitude, sobranceiro ao rio Mondego, para além das condições naturais de defesa que oferecia, era ponto de passagem quase obrigatória entre o Norte e o Sul – a partir daqui o Mondego entrava na vasta planície aluvial.

No século XII, Coimbra apresentava já uma estrutura urbana, dividida entre a cidade alta, designada por Alta ou Almedina (foto 05), onde viviam os aristocratas, os clérigos e, mais tarde, os estudantes. A Alta da Cidade (foto 06) é a parte mais antiga de Coimbra e onde as ruas são mais estreitas e íngremes. Nela situa-se a Universidade de Coimbra, Capela de São Miguel, junto a Universidade (foto 07), o Museu Nacional Machado de Castro (foto 08), a Sé Velha (foto 09) e a Sé Nova (foto 10) que são ícones da cidade e da arquitetura.

A Rua da Sofia

(FOTO 11) R. da Sofia.
(FOTO 11) R. da Sofia.

Foi rasgada em 1535, como artéria de invulgar amplitude e regularidade para a época. A Rua da Sofia (foto 11) destacava-se entre a malha apertada e sinuosa das ruelas e becos envolventes, destinando-se a abrigar, desde o primeiro momento, os colégios da Universidade, que D. João III fazia regressar a Coimbra, instalando os edifícios principais no Paço Real. Esta nova e monumental estrutura urbana conferia uma simbólica muito particular à instalação das escolas, realizada a partir de 1537; deste então, e até à actualidade, a história e a vida da cidade permaneceram intimamente ligadas à Universidade. No entanto, e apesar do dinamismo que esta estrutura criou e sustentou, a Rua da Sofia permaneceu durante séculos relativamente afastada dos ritmos urbanos tradicionais, como verdadeira “cidade universitária” e rua nobre, em torno da qual se mantinha um bairro ocupado por estudantes, e aberta ao comércio vulgar apenas a partir do século XIX .

Na Rua da Sofia foram erguidos sete colégios, com as suas igrejas:
1. O Colégio do Carmo (foto 12) foi construído a partir de 1540, tendo a igreja ficado concluída em 1597 e o claustro em 1600. Dos edifícios quinhentistas e seiscentistas subsiste apenas uma parte, bem como a igreja.
2. O Colégio da Graça (foto 13) foi fundado em 1543 e incorporado na Universidade em 1549. O edifício foi ocupado por um quartel militar, já retirado, mas cuja permanência implicou uma série de construções modernas, desvirtuando as características arquitectónicas e as funcionalidades originais.
3 e 4. Os Colégios de São Pedro (foto 14) e São Tomás possuem actualmente valências muito diversas, sendo este último a sede do Palácio da Justiça (foto 15), depois de ter servido como moradia nobre; o seu portal principal, riscado igualmente por Castilho, está no Museu Machado de Castro.
5. Do Colégio de São Boaventura (foto 16) resta a igreja, sem afectação ao culto, e hoje propriedade particular.
6. O que resta do Colégio de S. Bernardo, particularmente os claustros, está ocupado por casas particulares, embora parte da cerca pertença à Câmara.
7. O Colégio das Artes (foto 17) encontra-se em recuperação, integrando um Centro de Artes Visuais.

O Convento de São Domingos (foto 18), edifício quinhentista destinado a substituir a primitiva casa fundada pelas infantas D. Branca e D. Teresa no século XII, é hoje um espaço inteiramente descaracterizado, onde funcionam galerias comerciais. Este imponente edifício foi traçado pelo arquitecto e engenheiro militar Isidoro de Almeida, introduzindo alterações importantes em relação ao modelo castilhano, embora a igreja nunca chegasse a ser terminada.

 

Desvirtuada que está a maior parte do seu património edificado, incluindo o importante e coeso núcleo colegial, bem como as casas religiosas e algumas habitações nobres, a Rua da Sofia vale particularmente pelo conjunto de soluções urbanísticas e inovações arquitectónicas que implicou, particularmente nos séculos XVI e XVII. Ressalva-se naturalmente a emblemática funcionalidade académica, a modernidade representada pela centralização dos colégios, e a adequação dos modelos arquitectónicos clássicos à reforma do ensino proposta por D. João III, entre outras importantes propostas.

Já entendidos os valores de cada local e os critérios a serem cumpridos para chegar a património mundial, as conclusões são:

Relativo ao critério I:

A Universidade, ao longo dos seus sete séculos de história, desempenha um papel absolutamente indiscutível de centro de produção e transmissão do saber numa área geográfica que abrange quatro continentes – do antigo Império português.

Sobretudo a partir da sua definitiva instalação na cidade de Coimbra, as influências culturais, artísticas e ideológicas de todo este mundo criado pelo pioneirismo dos descobrimentos portugueses, recebendo e difundindo conhecimento nas áreas das artes, das ciências, do direito, da arquitetura, do urbanismo e da paisagem.

Relativo ao critério II:

Universidade de Coimbra — Alta e Sofia mantém vivo um conjunto de tradições características das práticas simbólicas associadas às festividades cíclicas académicas, cujas origens se perdem nos seus sete séculos de história. Quer ao nível da cultura académica institucionalizada, sobretudo na Tomada de Posse do Reitor, Abertura Solene das Aulas, provas de Doutoramento e Doutoramento Honoris Causa, quer ao nível da cultura académica estudantil, com a Festa das Latas, a Queima das Fitas, as Serenatas e a Canção de Coimbra, estas tradições constituem parte do imaginário da Universidade de Coimbra, mas também dos pais, amigos e estudantes de outras universidades nacionais ou internacionais que participam nos eventos académicos, e ainda, fazem parte do imaginário dos cidadãos dela. Devido a importância, vivacidade e potencialidade criativa destas tradições, estas têm sido influenciadas e recriadas por outras comunidades universitárias.

Relativo ao critério III:

Universidade de Coimbra — Alta e Sofia é um conjunto arquitetónico notável, simultaneamente ilustrativo das diversas funções da instituição universitária, que tem as suas origens na Idade Média, e dos vários períodos significativos da história da arquitetura e da arte portuguesa e do espaço geográfico e cultural português – o do antigo Império português. A sua história está intimamente relacionada com as reformas nos campos ideológicos, pedagógicos e culturais, com correspondências diretas ao nível material. Através do seu conjunto, a Universidade de Coimbra representa e é resultado da agregação de uma longa génese cultural, sempre presente e ativa, arquitetónica e esteticamente verificada nos vários edifícios que a compõem, compreendidos nas áreas candidatas a Património Mundial, a Alta e a Sofia.

Relativo ao critério IV:

Universidade de Coimbra — Alta e Sofia desempenhou um papel único na constituição e unidade da língua portuguesa, expandindo a norma culta da língua e consagrando-se como importante oficina literária e centro difusor de novas ideias, tendo passado por esta instituição vários escritores e divulgadores da língua e da cultura. Sendo a única Universidade em todo o espaço geográfico de administração portuguesa, a sua ação estendeu-se na formação dos profissionais que seguiam para o espaço geográfico de administração portuguesa, quer continental e insular, quer nos antigos territórios ultramarinos até às suas respetivas independências, formando as elites e os movimentos de resistência e contestação ao poder. A universalidade desta Universidade está ainda bem viva nos vários cantos do mundo, já que são muitos os atuais estudantes universitários de vários países, sobretudo os lusófonos, que retomam aquela história, influenciando e deixando-se influenciar culturalmente, mantendo viva a troca de ideias e de conhecimentos.

Fontes:

– http://www.publico.pt/multimedia/video/patrimonio-coimbra-20130621-183601

– http://candidatura.uc.pt/pt/criterios/

– http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5909

–  http://candidatura.uc.pt/pt/atributos/

http://www.cm-coimbra.pt/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=4985&Itemid=381.

http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/74886/

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s