Machado de Castro com Arq. Byrne

No dia 27 de Maio de 2013, houve uma visita no Museu Nacional Machado de Castro, com o Arquiteto Gonçalo Byrne, autor das obras de remodelação e de ampliação do museu, que ocorreram entre os anos de 2007 a 2012, com reabertura no dia 11.12.12.

Para quem não foi, aqui fica um resumo das explicações ditas pelo arquiteto durante a visita… E também aviso que há a possibilidade de acontecer outra… fiquem atentos!

Palavras do arquiteto:

“Além do património arquitectónico há um património arqueológico. Tocar num património de 2000 anos, foi um grande fascínio. Aqui há uma coleção museológica de grandíssima qualidade…. Sobretudo na escultura do renascimento e na escultura medieval.

… Um fato curioso, é que eu lembro-me de uma situação que José Saramago veio a Portugal nos anos 60/70, visitou o Museu Machado de Castro e disse: Como é possível uma colecção de tanto valor estar tão pouco valorizada na exposição?!

(Sobre o pátio do Museu)… No século XVI o pátio é coroado com o pórtico de Filippo Tércio, que é um Arquitecto italiano e  Engenheiro Militar, que veio jovem para Portugal e ficou até o Felipe II. Esse arquiteto tem obras muito grandes em Portugal, como o torreão Tércio, do Terreiro do Paço em Lisboa. O pórtico do Tércio, é importante porque finalmente faz a rotação do que era o eixo do Fórum, que estava em cima do criptopórtico romano (ver foto da maqueta). Antes havia uma praça com porticado duplo, de dois pisos.  Em 1910, instala-se o Museu Cívico de Coimbra, na altura que o Bispo cede o paço (este Museu já foi Paço Episcopal da Diocese de Coimbra), mais tarde Museu Nacional Machado de Castro. Em 1998, teve o concurso para a remodelação do Museu. *Neste momento o arquitecto foi interrompido, para ser comunicado que o concurso havia sido em 1999/2000. E responde, com um bom-humor, que em dois mil anos errar um não tem importância nenhuma.

Ainda o Arquiteto a falar sobre o Museu: “Isto foi uma mesa que serviu para expor um pouco a arquitetura da história, ou a história da arquitetura, e sobretudo a história da arquitetura da cidade de Coimbra. Esta questão é importante, pois a primeira reação quando começou-se a trabalhar no Museu foi pensar sobre como mostrar uma coleção (pintura, escultura, etc.), onde este era o  Museu ideal para falar da história da arquitetura, porque está cá toda, porém numa condição de fragmento, com períodos diferentes. Aquilo que realmente é unitário é o criptopórtico romano, que está praticamente intacto e revela, pela sua estrutura, o que terá sido o Fórum Romano. E o Fórum é feito num sítio onde passa o Cardo e o Decumanus da cidade romana. Este Decumanus é um Decumanus menor, pois não é retilíneo, por causa da encosta, e segue até a Sé Velha, em curvas. E até hoje é reconhecível, o seu trajeto, pois está lá a cloaca romana, ou seja, o grande esgoto da rua romana, e há dois troços expostos, um deles está no criptopórtico.

O projeto, já na fase de obra, sofreu duas evoluções importantes, primeiro houve a aquisição de um segundo terreno, onde está a sede administrativa do museu, que não estava previsto na época do concurso, pois durante as escavações apareceu um resto das lojas e do esgoto romano e o projeto teve que ser modificado. E com isso conseguiram perceber que a rua romana, o decumanos, tinha umas três vezes a largura da rua medieval, gótica. Quer dizer que entre o período romano e o período gótico, já houve especulação imobiliária, ou seja, houve claramente conquista de espaço público. Esta adaptação foi essencial, pois este troço da ruína era muito importante e foi musealizado. Quando sobe a calçada da Sé, vê-se esse troço através de uma grelha. A segunda intervenção que foi introduzida a meio do projeto… um espaço polivalente para exposições temporárias, porém não foi realizado, pois foi descoberto nas escavações do centro do criptopórtico um corpo paralelepipédico grande, onde seria esse espaço polivalente, e também receberia um elevador para facilitar o acesso as pessoas com problemas de mobilidade.

A igreja barroca de S. João de Almedina tem como futuro ser o auditório do museu, mas como foi o local de armazenamento das peças durante a obra, ainda não foi restaurada. E depois de ser, vai funcionar, como já funcionou, antes das obras, como auditório para concertos, conferências, etc. e pode ter a entrada, ou directamente da praça, junto a entrada do Museu, ou através do circuito, por uma porta que dá directamente ao altar da igreja.

 

O Arquiteto: “Neste projecto de remodelação e ampliação do museu, além do projecto de arquitectura, houve o projecto de arqueologia, e o apoio de várias outras equipas, de iluminação, de sinalética, etc.. Houve uma grande preocupação, no projecto, que os espaços não tivessem um carácter de finalizado, pois ainda há muitas peças encaixotadas, para serem restauradas, montadas e consequentemente expostas.

Nos anos 60 foi transplantado para cá uma grande peça de arquitectura, completamente fora de escala, e que não tinha nada a ver com o sítio. Era uma capela lateral da Igreja de São Domingues (Capela do Tesoreiro, séc. XVI), que é um Monumento Nacional, foi desmontada pedra a pedra e remontada no atual local, porém muito encostada ao fragmento do claustro. Ou seja, aqui tem fragmentos de arquitectura que foram escavados e mantidos no local de origem e também fragmentos de arquitectura transplantados (ver imagens).

Um dos dados do programa do concurso, era praticamente os sítios onde se podia fazer obra nova, era toda a ala que já havia sido intervencionada, nos anos 50 pelo arquitecto Luís Lopes, onde foi criado um pátio exterior para instalar a Capela do Tesoreiro (séc. XVI), de João de Ruão. E no projecto apresentado, foi proposto a substituição desta grande nave para dentro do museu, pois estava exposta a chuva, ao sol, e sobretudo aos pombos, estava sendo rapidamente degradada. Portanto era importante protegê-la, como ela sempre tinha vivido, pois ela vivia dentro de uma igreja, protegida.

A intervenção arquitectónica mais importante, quando se tem todos esses fragmentos, foi criar um circuito com boas condições de exposição, sobretudo na parte de arquitetura e da escultura, já que a pintura tem limitações do ponto de vista da configuração. E tirar muito partido da luz natural. E por isso esse Museu deve ser visitado em várias épocas do ano e em diversos horários. Trabalhar a luz natural, é o tema central da arquitectura, é o principal veículo da expressão do tempo.

Quase todos os museus, na área da pintura, utilizam luz natural, porém os conservadores dizem que não deve ser, pois os raios ultravioletas diminuem o tempo de vida da pintura. Em sua parte é verdade, mas aonde está o bom senso? Historicamente a pintura ou estava na casa das  pessoas, ou estava nas igrejas, ou estava nos palácios, ou seja, a pintura era usada para ser vista em grande parte do tempo com a luz natural e a tendência para não ter a luz natural, para prolongar o tempo de vida, é a homogeneidade da iluminação, ou seja, não há variações de iluminação. E aqui impôs-se o critério museológico, sem luz natural, com pouca radiação ultravioleta e com pouca variação térmica.”

Pintura:

Esculturas:

Ourivesaria:

Detalhes do circuito:

icone para o museu